segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Vermelhinho puxando pro magenta


Percebeu que não estava muito bem lá pelas 2 horas da manhã. Sua vista embaçada, as coisas inanimadas se animando, os barulhos dançando no seu cérebro. Não sabe como e nem porque decidiu ir embora.

Quando abriu a porta de casa, a primeira coisa que viu foi um pote cheio de amoras que a vizinha polaca tinha mandado. Vizinha polaca legalzona, sempre salvando os finais de noite atordoados. Sem raciocinar ou sentir alguma coisa, engoliu metade daquele pote mais rápido do que comeria um pedaço de costela.

Quando deitou, ainda tentou ler alguma coisa para disfarçar a “voltidão” de sua cabeça, mas não adiantou. Tentou segurar em seu estômago por mais tempo que podia, mas não conseguiu, era pressão demais já subindo pela garganta.

Correu para o banheiro.

Quando seu estômago se libertou daquilo, foi a coisa mais bonita que já viu. Seu vomito vermelhinho puxando pro magenta... Era uma cor nova, uma tonalidade tão bonita que chegava a sensibilizá-lo no meio do torpor. Olhava com admiração para o vaso tingido enquanto outro jato saía com força de seu corpo, nunca havia visto um vômito de tão bom gosto!

Bendita vizinha polaca com suas amoras, deu uma nova definição para o que ele achava belo no mundo! Ficou olhando por um tempo suas coisas meio digeridas antes de puxar a descarga... Até ele indo embora era bonito! Se o mundo fosse pintado com aquela nova cor, tudo seria felizmente mais feliz!

Passou a noite inteira indo ao banheiro pintar o vaso com a tinta de suas entranhas. Depois de um tempo, até seus rins deviam estar mandando guarnições. Ele nunca iria acabar, sua “voltidão” nunca iria acabar...

No outro dia, uma menina estranha limpou os últimos resquícios de sua arte noturna. O vaso, novamente adquiriu aquela cor cinzenta de banheiro de mercado de pobre. “Como as pessoas são tão....são....ah, sei lá...”

Saiu por aí a imaginar como seriam as coisas cobertas com aquela nova cor, aquela sua nova cor. As pessoas com a cara, as casas com as telhas, as plantas e o céu, tudo, tudinho vomitado com sua cor especial! Apenas a sua cor especial! Aquele seu vômito, vermelhinho puxando pro magenta que só ele era capaz de produzir...

Ele realmente queria vomitar no mundo, e alagá-lo com sua beleza gástrica.

Seu nome, Francisco Alberto.
Sua profissão, Designer Gráfico.

Maldito Coração




"...Eu vou até a janela e pego as pedras lágrimas de anjo perfeitas que encontrei no parque Stone Fairy.

- Olhe o que eu comprei pra você, docinho, por favor, querida, é bonito mesmo – Ele parece que vai chorar. Eu sei que não adianta nada. Eu sei que ela vai embora. Seguro minhas cruzes de pedra e rezo para que ela me leve com ela.

- Por favor, baby, me desculpe, por favor, baby.

Eu não achei as pedras na floresta realmente.

- Você não pode me deixar, baby!

Eu as roubei da loja de souvenirs, onde eles vendem pedras perfeitas que outros encontraram. Finjo que as encontro, finjo que só eu consigo encontrar algo tão perfeito, tão abençoado, tão especial.

- Por favor – ele chora.

Eu me levanto com certa dificuldade, como se estivesse tentando correr num sonho. Eu me debruço para fora da janela sobre minha cama.

- Bonequinha, jamais vai acontecer de novo!

Sinto o decadente cheiro doce de outono e vejo o vermelho e o amarelo espalhados pelas montanhas, como um incêndio atingindo todas as árvores em volta do nosso trailer.

- Achei que ele era você, achei mesmo, parecia igualzinho a você, eu juro...

Estico minha mão fechada e jogo minhas cruzes pela janela, na terra.

- Ele ficou em cima de mim, falando como você, parecendo com você bonequinha...

Vou esperar que elas cresçam, como o pé de feijão mágico, subindo até o céu. Vou subir nele, mesmo que a água salgada em formato de chuva me atinja.

- Você não pode fazer isso comigo, boneca! Não Pode!

O céu vai se abrir como uma fenda na carne e os cabos vão se despedaçar como vidro.

- Há algo de errado com ele, baby, algo não está certo.

E milhões e milhões de lágrimas de anjos vão sacudir a terra e se solidificar em cruzes.

- Não vou deixar ele me pegar assim de novo, bonequinha, eu juro!

E eles vão esperar centenas de anos para que eu volte e venha buscá-las.

- Vamos embora, baby, apenas eu e você, para um lugar chique e legal.

Vou buscar minhas lágrimas petrificadas pelo terror da perda..."



The Heart is Deceitful Above all Things, JT LeRoy

domingo, 28 de setembro de 2008

"...A lua não é um satélite... é um buraco no céu..."

Olho buraco

Negro no branco

Buraco negro

No rosto


Acaba com tudo

Mesmo sem tocar

Mesmo sem falar

Mesmo sem olhar




*"...Ainda assim, tenho a sensação de que, se eu a beijar, meus lábios grudarão como se estivessem tocando em metal congelado. Para retardar as coisas, penso em carcinomas celulares basais. Imagino o impetigo causado pela infecção bacteriana na pele. Úlceras corneanas..."




*Choke, Chuck Palahniuk

Amo muito tudo isso

Aqueles óculos balançando, tremendo no meio do barulho...
Aquele barulho, balançando e tremendo no seu cérebro...
Aquele seu cérebro que não presta mais para nada...

"… you're in high school again …
...you're nothing again...
... no recess …"

Aquela dor de estômago que nunca vai embora
Aquela dor no seu bolso que sempre vai embora
Aquele xerox do xerox do que você estava tentando não prestar atenção.

Aquela maldita vida que você tem que fingir que escolheu

No meio de pontos e de bolas coloridas
No meio de todas aquelas fotografias
No meio de toda aquela obviedade disfarçada de algo que não existe

A luz nos seus olhos, aquele zumbido no seu ouvido
Aquele catarro no seu pulmão
E você acabando com todo mundo

Você não lembra mais como dormir

Nem tenta ser legal

Nem tenta ser nada

Então fica realmente feliz em saber que as pessoas sabem que você escolheu tudo isso.

É exatamente tudo que você podia esperar.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008


Prenda a respiração e fique bem quieto. Não se mexa. Equilíbrio. Tente não estragar mais nada.

Por favor...

Segure os batimentos, seu peito tremendo, mexendo, fique quieto.

Tente ouvir pela porta. Não exista.

As pessoas só fazem coisas legais por amor próprio, para serem legais para elas mesmas.

- Oh, como sou bom e puro, eu amo meus amigos...

Se você ficar quieto ninguém vai conseguir ouvir seus pensamentos. Olhe para outro lugar. Vá para outro lugar.

Depois de cada surra, de cada tapa, você aprende que é mal. Eles dizem, desde sempre, este é o seu papel no mundo. Você é ruim, seus irmãos são legais. Aprenda e fique aí.

Destrua tudo, destrua e acabe com a vida de todo mundo.

As pessoas são legais para si mesmas, tem pena de si mesmas, se sentem más por elas mesmas.

Apenas para elas.

Você sabe que é um maldito desgraçado, fodido, mentido metido. Você não presta. Filho da puta.

Maldito comedor de maçãs.

Você é mal para eles se sentirem bem. Você só tem que sorrir. Sorria o tempo todo, seja o ópio das culpas.

Sorria, e tudo vai estar bem.