terça-feira, 2 de junho de 2009

Aquelasmeninaslá


Clarissa, a mocinha do post abaixo, é uma gargalhada de deboche. Uma gargalhada, um tapa e um foda-se. É tudo isso bem na cara dos professores, na cara da associação de pais e mestres, tios, vós, vizinhos e presidentes. De toda essa gente que não sabia nada sobre nós. De toda essa gente mentirosa que não sabe nada sobre nada.

*-O que é que você está fazendo aqui, meu bem? Você não tem nem sequer idade para saber como a vida fica ruim depois.

“É verdade! Pensei. Eu nem sabia como ia ficar ruim depois, que bosta, crianças não sabem de nada mesmo e...” Meus pensamentos revoltados foram interrompidos segundos depois pela continuidade da leitura:

-Evidentemente, doutor – disse-, o senhor nunca foi uma garota de 13 anos.

Foi o soco. Era verdade. Eu não lembrava como era ser uma garota de 13 anos. Já passou tanto tempo. Como é ser uma garota de 13 anos. Como é ruim ser uma garota de 13 anos. Todo o desespero claustrofóbico de ser uma garota de 13 anos.

E ainda ter que fazer Educação Física.

“Tem um menino lá na escola. Ele é tão bonito... ele é tão legal...”

Ser xingada como se fosse a pior pessoa do mundo por estar usando maquiagem demais, roupas apertadas e curtas demais.

“Tem um menino la na escola... E ele não sabe como eu sou legal... e como eu sou... bonita...”

Ser xingada como se fosse a pior pessoa do mundo por não estar usando maquiagem nenhuma, roupas largas demais, por querer andar descalço e ser um pato desengonçado.

“Todas as meninas bonitas e legais já sabem. Todas as populares já sabem. Todas as patricinhas da escola já perguntaram o nome dele e sabem onde ele mora...”

Coxas grossas e canelas finas. Nenhuma mãe combina e nem entende a filha. Isto é uma lei absoluta universal, e se for quebrada, pode ser o fim do mundo.

“Mas ele nunca vai saber, oh não, como eu sou legal. Ele nunca vai saber o meu nome. Muito menos onde eu moro...”

O perigo para as garotinhas está logo ali, do outro lado da cerca. Você não sabe o que eles querem e nem o que pensam. Você não sabe nada sobre você. O que eles sabem sobre você.

"Ele é tão bonito e legal. Ele sempre passa pela grama e ele sempre vai ficar no meu caderno..."

- Uma das coisas que eu tenho muito medo na vida, são mulheres. Você já entrou em um banheiro feminino? É assustador. Todos aqueles cabelos perfeitos... toda aquela desaprovação... Cheguei a essa conclusão em um recreio na 8ª série.

"Meu caderno com desenhos e segredos tão secretos. Os segredos mais secretos do mundo, sobre a idiota mais secreta do mundo. E ninguém nunca conseguiria derrubar este tão sólido muro."

Você não sabia que era errado. Nem que era perigoso. Se soubesse, nunca teria entrado, ou seguido aquele garoto.

"O segredo mais secreto e errado do mundo. O segredo mais secreto, mais errado e perigoso. Ele sempre passa no meu caderno. Ele sempre passa no meu caderno..."

Nenhum menino, nenhum, nunca, nunca vai saber o que é ser uma garota de 13 anos. Nenhum menino vai saber como é, estar livre, mas muito presa a um quarto, uma casa, um mundo com todos os segredos mais secretos, perigosos e sujos. Ninguém diz nada, mas todo mundo espera que você saiba exatamente o que fazer. Ninguém te diz nada sobre nada. Ninguém existe para você, você é uma garota de 13 anos.

Depois você faz 14, faz 15, faz 16, 17, 18...

O desespero claustrofóbico

Sempre

Garotas

Não existem

*As Virgens Suicidas, Jeffrey Eugenides

Nenhum comentário: